O lamento

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Ela contou para ele no primeiro encontro. Eles tinham ido ao cinema para assistir a mais nova tragédia romântica, que tirou soluços discretos de quase todas as mulheres da audiência, mesmo dela. Desde bebê ela nunca havia chorado.

A revelação teve pouco impacto no relacionamento florescente. Eles eram tão felizes quanto um casal comum, e, depois de algum tempo, decidiram se casar. Ele descobriu que, mesmo com a inabilidade dela de chorar, ela era muito carinhosa.

Porém, conforme os anos passavam, ele ficou cada vez mais perturbado pela aparente insensibilidade dela. Qualquer tragédia que caía sobre eles parecia ser sentida apenas por ele, e assim ele começou a se ressentir dela. Noite após noite ela dormia tranquila ao seu lado, enquanto ele ficava acordado, imaginando quais horrores poderiam finalmente fazê-la chorar.

No fim, ele percebeu que as lágrimas nunca viriam a ela, e, em uma noite enquanto ela dormia, ele apertou um travesseiro contra o rosto dela e o manteve ali enquanto o corpo estremecia e convulsionava. Quando ergueu o travesseiro, ele viu que afinal os olhos dela estavam tomados por lágrimas, que brilhavam mesmo no quarto escuro.

Ele cobriu o corpo morto dela e correu para o banheiro, onde jogou água fria no rosto. Então um choro abafado veio do quarto, quebrando o silêncio. O horror cresceu nele como uma onda. O choro continuou, cada vez mais perto.

Ele se virou para encarar o barulho e olhou o corredor imerso na escuridão, de onde uma voz familiar disse tristemente:

– Está feliz agora?

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